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Entrevista com João Silva: “O papel dos pais no desporto”

Entrevista com João Silva: “O papel dos pais no desporto”

Entrevista com João Silva: “O papel dos pais no desporto”

A psicologia no desporto tem vindo a ganhar o seu espaço nos clubes portugueses, dada a importância que tem tanto dentro, como fora das quatro linhas. O Sport Clube Vianense reconhece o valor do trabalho do psicólogo desportivo e, por isso, desde setembro que conta com a ajuda do estagiário João Silva, que acompanha diariamente a equipa dos Sub-17, atualmente a disputar o Campeonato Nacional.

Acreditamos, contudo, que, para crescermos, precisamos de chegar também aqueles que todos os dias acompanham os jovens atletas que treinam nos nossos campos: os pais. Neste sentido, no dia 12 de fevereiro, pelas 18h, nas instalações do Sport Clube Vianense, será analisado “O papel dos pais no desporto”, numa formação liderada por João Silva que, em entrevista, nos falou um pouco do tema em questão.

 

P: Olhando para a atualidade, de uma forma geral, qual é o tipo de envolvimento que os pais têm no desporto e qual é o envolvimento que idealmente deveriam ter?

R: Numa ideia geral há quatro tipos de pais: temos os interessados; os interessados de forma correta, que estão presentes, apoiam os atletas, mas não interrompem nem põe demasiada pressão; os excitados, que querem estar em todo o lado; e os demasiado excitados, que querem ser treinadores, diretores…

O que eu aconselho e gosto de dizer aos pais é que devem estar presentes: trazer os miúdos, ver os jogos, opinar, mas não devem pôr a opinião deles à frente da de ninguém, nem pôr as ambições deles, os desejos como pais, acima das ambições, desejos e vontades dos filhos. Isso às vezes acontece e, infelizmente, cada vez mais.

 

P: Hoje em dia, vemos, muitas vezes, os pais, os treinadores ou adeptos em geral, a insultar árbitros e até mesmo jogadores. Estas situações acabam também por afetar psicologicamente os atletas…

R: Exatamente…São jovens que estão em crescimento, estão a desenvolver a própria personalidade, e vejo, cada vez mais, não só os pais, como avós e adeptos, a insultar, a criticar, a exigir coisas que os jovens ainda não conseguem dar. A formação é para isso mesmo que serve, para desenvolver, para evoluir, para aprender e cometer erros. O erro é o motor do progresso. Portanto, não podemos pedir a um miúdo que acerte sempre, que nunca falhe, porque vai falhar e é por isso que depois vai conseguir. Infelizmente, os pais e adeptos em geral parece que se esquecem disso.

Há cada vez mais pressão e mais maus exemplos vindos de cima. Como vemos agora, existem programas televisivos para discutir tudo, jornais a comentar tudo, críticas a tudo, inclusive aos árbitros. Depois, claro, isso vem para baixo e tudo gera uma violência, um conflito, em que, naturalmente, acabam por sair prejudicados os que não têm culpa nenhuma, os inocentes que só querem jogar futebol, aprender e fazer, acima de tudo, o que gostam.

 

P: Podemos, então, dizer que os pais têm um papel fundamental para os jovens conseguirem aliar o seu desenvolvimento e divertimento a uma competição saudável?

R: O essencial é isso mesmo. Chama-se formação desportiva por algum motivo: para formar o atleta, o jovem futuro adulto, para eles evoluírem e se divertirem; o resultado é consequência. O problema é que estamos, cada vez mais, a tornar o resultado a prioridade e a desvalorizar a evolução, o desenvolvimento e o divertimento. Isso faz como que depois os pais, adeptos, por vezes até treinadores, fiquem obcecados com o resultado e com o desempenho esquecendo todo o processo que há por detrás disto, e esse sim é que é importante: a formação.

 

P: Numa das tuas crónicas escreveste que, quando não há pressão, “os objetivos passam a ser dos atletas e não impostos aos atletas”. Este é um dos compromissos que tem de haver por parte dos pais para que o atleta possa crescer?

R: Como costumo dizer, o futebol é como qualquer outro trabalho. É muito diferente um trabalhador ter um objetivo pessoal de atingir um resultado ou ser-lhe imposto esse objetivo. Os processos motivacionais são completamente diferentes. Uma coisa é dizerem “Tens de fazer cinco golos”, outra é eu dizer “Vou fazer cinco golos”. A motivação é muito diferente quando és tu que traças os teus objetivos. Não digo que os pais e treinadores não os devam incutir também, porque os objetivos devem ser incutidos. Mas perguntem aos vossos filhos e atletas “Qual é o teu objetivo?”, em vez de lhes dizerem “o teu objetivo é este”. Faz toda a diferença e ajuda-os a perceber que ter um objetivo é o primeiro passo para desenvolvermos e evoluirmos.

 

P: O que é que esperas alcançar com esta formação?

R: Espero, em primeiro lugar, divulgar o que é a psicologia no desporto, pois acho que ainda é um tema muito pouco abordado, muito desconhecido e existe pouca cultura, poucas noções do que é; abordar quais os benefícios, para os jovens, de participarem em atividades desportivas, independentemente da modalidade; perceber qual a influência dos pais e dos colegas no desenvolvimento e crescimento psicológico destes jovens atletas; o que os influencia realmente para a prática desportiva e a influência positiva ou negativa dos pais; quais as fontes de stress e ansiedade, normais da competição desportiva, e a forma como os pais podem ajudar os jovens a lidar com elas; e, por fim, mostrar qual deve ser o papel e as responsabilidades dos pais e dos clubes. Aqui no Sport Clube Vianense temos regras para os pais, afixadas na entrada e são muitas vezes desvalorizadas.

 

P: Apesar da psicologia no desporto ainda não ter, em Portugal, o peso que deveria, concordas que o caminho para o avanço será sempre através da instrução e do debate?

R: Sem dúvida! Eu costumo dar um exemplo que é mais fácil para as pessoas perceberem. Há pouco tempo, e não estamos a falar de há muitos anos, a fisioterapia no futebol era impensável. Quem ia ao fisioterapeuta era porque não aguentava a dor. Hoje, é impensável um clube de futebol não ter pelo menos um fisioterapeuta. E a psicologia está a passar essa mesma fase. Ou seja, quem agora vai ao psicólogo é porque é sensível, daqui a uns anos, vai ser impensável um clube desportivo não ter um psicólogo, porque faz parte do progresso, faz parte da evolução. Em qualquer desporto temos uma parte tática, física, técnica e temos a parte mental. Basta ver os exemplos, quantas vezes ouvimos dizer “treinamos muito bem fisicamente, treinamos muito bem taticamente, mas os jogadores não estavam mentalmente preparados”? E como é que vamos trabalhar esta parte mental? Através do psicólogo, através do treino mental, das sessões individuais, dos treinos coletivos. E o psicólogo quando for a realidade, e acredito que vai ser, o desporto vai evoluir. Já acontece em alguns países e em Portugal é uma questão de tempo até que se sigam os mesmos exemplos.